Sobre a importância das APIs no ecossistema das edtechs

tecnologia Jan 26, 2021

Uma API serve para que duas aplicações possam "conversar" entre si. Ponto. É um daqueles termos da computação que extrapolaram o ambiente de desenvolvimento de software e passam a compor vocabulário das pessoas de negócios das empresas e startups e que se misturam com uma longa lista de palavras (in english é claro) que inclui : Artificial Intelligence, Blockchain, Big Data, Cloud, Digital Transformation, SaaS, Machine Learning, ...

A sigla API vem do inglês Application Programming Interface (em português, a Wikipedia traduz como Interface de Programação de Aplicações).

Em 2021, a conveniência da minha e da sua vida (digital ou offline) é sustentada por uma séries de APIs.

Veja alguns exemplos:

  • Quando compramos algo pela internet usando o cartão de crédito: seja aquele produto no app do Magazine Luiza ou o lanche pelo iFood, existe uma integração, viabilizada por um conjunto de APIs, que após você "clicar em comprar" conecta o serviço com o meio de pagamento do cartão que vai fazer uma série de verificações para processar, autorizar (ou não) e concluir devolvendo uma reposta para o app.
  • Ao fazer um cadastro em algum site usando o botão de login com o Google e/ou Facebook. (Aposto que você se espante com o número de aplicações que estão conectadas, clique aqui para ver o seu)
  • E até mesmo o Governo Federal tem usado APIs para melhorar a oferta de produtos digitais para a população, oferecendo um catálogo de APIs Governamentais.
  • Ao fazer um pagamento ou transferência usando PIX.

Mas... e na educação?

Mesmo com a crescente digitalização dos serviços na educação e do aumento da oferta de soluções diante de investimentos cada vez maiores em edtechs, os sistemas ainda operam de forma isolada.‌‌‌‌ Os dados gerados pela vasta  maioria das plataformas, basicamente, estão condicionados as próprias plataformas, seja ela com foco administrativo ou pedagógico.

‌‌‌‌Na prática, tarefas simples como criar acessos em plataformas educacionais ou transferir notas de uma turma para o sistema de notas da escola vem junto com uma sobrecarga operacional, fazendo com que a equipe escolar (ou em alguns casos as próprias edtechs) tenham que cuidar disso: recriando listas, baixando CSVs, copiando e colando. Tudo isso porque as soluções educacionais utilizadas carecem de APIs, impedindo que os serviços conversem entre si.

‌Esta limitação de APIs pode ser interpretada por uma certa falta de maturidade do ecossistema, como se as soluções ainda funcionassem num estágio primitivo, em alguma fase "pré-Internet". Não faltam exemplos em outros setores que colocam as APIs como parte estruturante e peça fundamental para o funcionamento da Web moderna, isso inclui a a popularização de conceitos da chamada "Platform Economy", como a Amazon e Facebook, que oferecem uma base para que outros desenvolvedores e empresas construam e ofereçam seus serviços.

Primeiros sinais de mudança: o setor privado

1) A transformação (digital) no Ensino Superior

Lá no blog da Sensedia, startup brasileira que oferece em soluções para publicação e gestão de APIs, existe um artigo que aborda alguns paradigmas da Educação Digital: o texto aborda, entre outras coisas, a questão da interoperabilidade dos dados, trazendo alguns no mercado de educação superior privada, como o case da Estácio.

O mercado privado de educação superior, pressionado pelo modelo de negócios, tem passado na última decada por um profundo processo de transformação digital e o diagrama acima resume bem como as APIs estão sendo aplicadas, integrando diferentes serviços do negócio.

2) Ensino Básico

Semelhante ao que já vem acontecendo com o ensino superior, o processo de digitalização no ensino básico também passa por um redesenho de arquitetura, o diagrama abaixo apresenta um exemplo de como a Vasta Educação (Cogna) está se estruturando para integrar diferentes serviços. Note, por exemplo, que o circulo da Plurall aí no centro "conversa" com diferentes serviços, também fazendo uso intensivo de APIs.  

2020. Visão gerencial da Vasta Educação (Cogna) para a Educação Básica (ver apresentação completa)

E na educação pública?

Mundo

Talvez o maior caso de sucesso é Clever, que começou em 2012 como uma startup que propunha a integrar os sistemas de gestão escolar (conhecido lá por Student Information System ou simplesmente SIS) com o ecossistemas de edtechs e assim oferecendo funcionalidades como: acesso logins únicos, enturmamento, etc;

Hoje a empresa oferece uma plataforma de serviços para que as redes de ensino, escolas, professores e alunos possam acessar o mercado de edtechs.

Inclusive, o sistema de login unificado (Single Sign-on) tem sido adotado em parcerias com editoras, como é o caso da McGraw Hill.

McGraw Hill Extends its Relationship with Clever to Provide Seamless Access to Digital Learning Tools to Millions of K-12 Students
/PRNewswire/ -- McGraw Hill is expanding its partnership with Clever, the most widely-used single sign-on (SSO) and rostering service in the K-12 market, to...

Brasil

Nosso radar ainda não mapeou um case de sucesso para compartilhar aqui. Logo, se você souber de alguma coisa, nos avise nos comentários.  

O que podemos esperar?

O fechamento das escolas 2020 só escancarou a complexidade do problema. As barreiras são inúmeras: desde questões técnicas, operacionais, regulatórios (ex. LGPD) até no modelo de negócios (ex. instrumentos de contratação e consumo dos serviços).

Como exercício e observando o que temos acompanhado até aqui, podemos tentar imaginar caminhos possíveis por meio de alguns cenários.

Cenário #1 - Onde grandes empresas de tecnologia dominam o ecossistema

Se olharmos as tendências de buscas para as soluções Google para Educação notamos um pico histórico (nunca visto) especialmente logo após o fechamento das escolas.

Neste cenário Google e Microsoft, que oferecem capacidade técnica e recursos para promover sua arquitetura com as startups edtechs do ecossistema podem ganhar a corrida pelas APIs e integrações.

Quem acompanhar?

Cenário #2 - Um (improvável) redesign dos sistemas LMS

Sistemas de Gestão da Aprendizagem (LMS) são bem conhecidos no mundo da educação, provavelmente você leitor(a) tem alguma opinião e/ou experiência em ferramentas como Moodle (que aliás, este ano, completa este ano 20 anos do seu lançamento).

As plataformas LMS continuam sendo utilizadas por uma série de organizações, incluindo instituições públicas.

Vale destacar também que os sistemas LMS apostaram durante muito tempo em um outro tipo de integração, por meio de uma especificação chamada LTI (Learning Tools Interoperability) mas hoje também oferecem integrações por meio de APIs e poderia oferecer integrações necessarias.

Coleções de integrações por meio de LTI no site edu-apps.org

Quem acompanhar?

Cenário #3 - Grandes grupos educacionais que atuam no setor privado decidem investir para oferecer (e vender) soluções para o setor público

Hoje estas organizações estão liderando seus processos internos de transformação digital podem se interessar também para atender os critérios necessários para atuar com o setor público, apostando talvez como uma nova vertical de mercado.

Assista o video completo em: youtu.be/xx1vzcoCGds?t=662

Quem acompanhar?

Cenário #4 - Novas funcionalidades em sistemas de Gestão Escolar de Código Aberto

Considerando revisões no orçamento disponível no setor público para educação, este cenário considera caminhos para uma implementação sustentável. Softwares de Gestão Escolar como o i-educar já entregam funcionalidades para gestão de Sala de Aula, gestão Escolas e Gestão Educacional e tem potencial para ser a "cola" que torne possível uma Secretaria de Educação integrar com outras tecnologias educacionais por meio de APIs.

Quem acompanhar?

Cenário #5 - Apostando inovação que pode nascer de dentro do governo

O fechamento das escolas e a necessidade de oferecer o ensino remoto para os alunos da pademia fez com que muitos governos repensassem sua atução por meio de uma estratégia digital. A estruturação de APIs podem garantir integrações e métricas importantes para a tomada de decisão nos níveis pedagógicos e administrativos.

Soma-se ao fato o governo federal tem buscado a digitalização dos serviços dentro de uma agenda de transformação e digital. Também podemos observar o surgimento de laboratório de inovação dentro do Governo e o amadurecimento das políticas inovação.

Quem acompanhar?


Os próximos 5 anos serão uma excelente oportunidade para experimentação. Como parte natural do processo, muitas ideias irão falhar mas algumas destas soluções irão florescer e chegar até muitos usuários. No final muito aprendizado será produzido. Na busca da superação de uma série de barreiras estruturais (ex. regulação, privacidade, modelo de negócios, etc) a aposta é que inovações incríveis irão aparecer, o que é certamente assunto para outros textos.


Se você está na posição de avaliar e adotar tecnologias educionais, lembre-se de prestar atenção nas APIs, quais recursos estão disponíveis, etc; com isso você irá garantir:

  • A melhoria da acessibilidade dos dados
  • Promoção da interoperabilidade
  • Possibilidade de estenção de funcionalidade do seus serviços

Além de contar com um ecossistema de usuários (desenvolvedores, usuários, etc) que vão agregar ainda mais valor na solução.

Quremos te ouvir! Se você tiver alguma experiência ou ideia com APIs na Educação, por favor, não deixei de nos contar.


Tópicos

Tiago Maluta

Paixão por produtos e dados, forjado na Engenharia da Computação. Hoje, 100% focado em impacto social e explorando o futuro da educação no Brasil.

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