Tecnologia no apoio à alfabetização? Uma oportunidade

alfabetização Jun 23, 2021

O Censo Escolar de 2020 indica que existem 8.252.761 de crianças nos três primeiros anos dos Anos Iniciais. Este período é particularmente especial pois é aí que a BNCC do Ensino Fundamental indica o 2º ano como o o ano de escolaridade limite para um estudante aprender a ler e escrever, seguido pelo 3º ano onde o processo continua com mais foco na ortografia.

Passar por esta etapa sem aprender o suficiente significa carregar um déficit de aprendizagem que não só vai se acumular ao longo da trajetória escolar como vai trazer impactos reais na vida deste aluno, limitando o rol de oportunidades.

Para este texto estamos fazendo um recorte do que acontece quando consideramos o domínio desta "tecnologia" que é a capacidade de ler e escrever mas é importante deixar claro que ensinar alguém a dominar o processo de aquisição da língua oral e escrita (Alfabetização) e incorporar estes processos nas práticas sociais (Letramento) é algo complexo, leva tempo e dedicação. Depende não apenas dos professore e do ambiente escolar mas também da família e outros contextos da sociedade.

Dividindo em etapas

Desde o final dos anos 1970, uma série de pesquisas começaram a dar luz a este processo. A psicolinguista argentina Emilia Ferreiro trouxe novos elementos para esclarecer o processo vivido pelo aluno que está aprendendo a ler e a escrever.

De forma bem resumida, a imagem abaixo ilustra as etapas para explicar a hipótese de escrita de um aluno (também conhecido como sondagem).

O exemplo considera o professor pedindo para o aluno escrever em um pedaço de papel a palavra PETECA.

Se o professor perceber que o estudante não consegue relacionar as letras com os sons da língua falada, ele vai sugerir o nível pré-silábico, assim por diante.


A importância dos diagnósticos

Nós sabemos que crianças aprendem de diferentes maneiras, por isso, o professor ao fazer um diagnóstico claro consegue definir qual estratégia ou abordagem deve ser colocada em prática.


O professor que atua nesta etapa do ensino deve ser capaz de:

  1. Fazer um diagnóstico adequado e individual para o nível do seu do seu estudante
  2. A partir dos resultados e considerando um repertório de estratégias aplicar aquela que terá maiores chances de fazer o aluno evoluir neste processo até o nível ortográfico.
  3. Repetir este processo

Desafios

  • Fazer um diagnóstico claro é um processo complexo e nem todos os professores são proficientes
  • Os diagnósticos desta etapa são majoritariamente um exercício individual do professor com o aluno, sendo necessário equilibrar com a dinâmica do resto da turma
  • Na pandemia e com o ensino remoto, as opções ficaram ainda mais limitadas

E se a tecnologia...  apoiasse o professor neste processo de avaliação diagnóstica?

No repertório de avaliações, existem diferentes tipos:

  • As hipóteses de Escrita (ou Sondagem)
  • As hipóteses de Fala (ou Fluência Leitora)

A semelhança entre estes instrumentos avaliativos é que todos geram dados e precisam se comparados com algum parâmetro de referência.

Um exemplo

Um dos indicadores de uma avaliação da fluência leitura é o número de palavras por minuto que a criança consegue falar. Funciona assim: o professor pede para o aluno ler um pequeno trecho de um texto, observa o aluno pronunciado e conta o número de palavras por minuto. Finalmente, a partir de um critério pré-estabelecido (ex. alguns estudos indicam 60 a 150 palavras por minuto para crianças do 1o ao 5o ano) elabora um diagnóstico.

E se existisse um app ou serviço no celular que ajudasse o professor a consolidar estas informações? Neste cenário, poderíamos imaginar algo assim:

Hoje a tecnologia já permite combinar diferentes interfaces (voz, videos, etc) com combinadas com um processamento computacional pode possibilitar ao professor ter acesso a uma grupo de ferramentas digitais, ferramentais tais que que podem auxiliar neste processo.

Quem já está tentando algo nesta direção?

App CAED de Fluência Leitora

O Centro de Políticas Públicas e Avaliação da Educação da Universidade Federal de Juiz de Fora (CAEd/UFJF) tem possibilitado avaliar a fluência em leitura com maior precisão por meio de um app. Desde 2018, o teste de fluência vem sendo utilizado pelo Ministério da Educação no programa Mais Alfabetização, que, só em 2018, avaliou o desempenho em leitura de cerca de 50 mil alunos de todo o país, matriculados no 2º ano do ensino fundamental.

MGTV 1ª Edição – Zona da Mata | Em Juiz de Fora, aplicativo ajuda professores a avaliar desempenho de estudantes | Globoplay
Avaliação com uso da tecnologia auxilia a traçar estratégias para potencializar a aprendizagem.

App EdLer

Desenvolvido pela Lyceum Consultoria, o EdLer é um app desenvolvido para Android e que busca oferecer uma experiência digital para o Teste de Fluência Leitora.


⚠️ Nenhuma destas soluções citadas ainda utiliza Inteligência Artificial, ambas consideram especialistas (humanos) como responsáveis para definir o diagnóstico. De todo modo, a visão já esta posta e é esperado que nos próximos anos estas técnicas sejam incorporaras no processo.

Oportunidade

É justamente quando pensamos o problema do diagnóstico combinado com tecnologia que moram oportunidades ainda não exploradas. Ainda existe um espaço muito grande para aprimorar as tecnologias que irão dar suporte ao professor no processo de alfabetização dos seus alunos.

São casos de uso onde a tecnologia já existente pode ser aplicada e colocada a serviços de problemas estruturais como é o diagnóstico, especialmente quando pensamos que este é um desafio de escala.

Uma oportunidade para, todos os anos, oferecer algo melhor para os mais de 8 milhões de crianças que passam pelo processo de alfabetização, se os professores tiverem melhores condições de realizar estes diagnósticos com auxilio da tecnologia, maiores as chances das melhores práticas impactarem positivamente a jornada de aprendizado dos alunos.

Se você está tentando resolver este problema por meio de tecnologia nós do Garagem Educação queremos te ouvir, escreva para nós em oi@garagemeducacao.com

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Tiago Maluta

Paixão por produtos e dados, forjado na Engenharia da Computação. Hoje, 100% focado em impacto social e explorando o futuro da educação no Brasil.

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