11 Problemas educacionais brasileiros para empreendedores resolverem

guia Jan 17, 2021

Só no ano passado, foram investidos R$ 14,35 bilhões em Venture Capital no Brasil. Os unicórnios tupiniquins são novos a cada dia, porém, dentre Nubank, QuintoAndar, WildLife, Creditas e outros há algo que me incomoda: a ausência de startups de educação (aviso: não estou considerando como startups as empresas de 10 anos+ que cresceram pulando o ciclo de venture capital direto para private equity). Por isso, resolvi escrever um guia para quem quer entender as oportunidades no mercado brasileiro e ter um referencial de conteúdo sobre o assunto. O escopo do texto não é ser um relatório detalhado, mas sim é apresentar uma visão geral para quem quer ter um impacto positivo na educação: considere aqui o seu passo inicial para ir a fundo nos problemas a serem resolvidos. A estrutura é :

  1. Dados sobre as 3 áreas principais: educação básica, ensino superior e lifelong learning
  2. Referências de conteúdo para você consumir
  3. Referências de empreendedores para você seguir

Os dados

A) Educação básica (fundamental 1, fundamental 2 e ensino médio)

Qual o tamanho do mercado?

Área Alunos Professores %Público % Particular
Edu. Infantil 8.7 Mi 589 mil 72% 28%
Edu. Fundamental 27.1 Mi 1.4 Mi 83% 17%
Ens. Médio 7.7 Mi 513 mil 87% 13%
Edu. Profissional 1.9 Mi 129 mil 57% 43%

Dados retirados do Todos pela Educação.

Principais desafios:

  1. Evasão: De cada 100 alunos que iniciam a vida escolar, somente 64 terminam o Ensino médio aos 19 anos [Todos pela Educação, 2018]
  2. Matemática: Somente 32 de cada 100 alunos brasileiros com 15 anos de idade tem o conhecimento adequado de matemática [INEP, 2018]
  3. Ciências: Mais da metade (55%) dos alunos brasileiros com 15 anos de idade não tem o mínimo de conhecimento em ciências [PISA 2018]
  4. Português: De 10 que terminam o ensino médio, apenas 3 tem conhecimento adequado em Português [Todos pela Educação]
  5. Inglês: Somente 1% da população é fluente em Inglês [British Council]
  6. Renda dos Professores: Dos 2 milhões de professores, 29% tem que complementar renda vendendo perfumes, sendo motorista, catando recicláveis... [Nova Escola]

Conclusões para quem quer empreender:

A educação básica é um balde de oportunidades para empreender. Os desafios são claros: o mercado está concentradíssimo nas 40 mil escolas particulares, que são atacadas pela maior parte das Startups em um modelo de negócio B2B (Business to Business) por serem um cliente mais "fácil" de se conseguir que o mercado público.

Porém no setor privado há uma tendência de consolidação das escolas por grandes grupos educacionais - que hoje estão em cerca de 1% do mercado privado apenas - o que traz a possibilidade de uma venda mais concentrada para os grupos que já tem um canal de distribuição estabelecido. Atenção para a margem do seu negócio, que vai ficar apertada dentro dos grupos. Outra preocupação é a dos próprios grupos te usarem para copiarem sua solução e depois acabarem com a parceria - obviamente nem todos fazem isso, mas o mercado sabe dos casos.

No setor público o modelo de negócio predominante é o B2G (Business to Government) em que os desafios são: o ciclo de vendas longo e a baixíssima adoção de tecnologia. Poucos conseguiram fazer isso hoje em escala, com destaque para as big Tech (Google For Education e Microsoft) que usam parceiros comerciais locais para enfrentarem os processos de licitação.

Outras EdTechs (Startups de Educação) vão para o caminho B2B2G (Business to Business to Government), em que uma grande empresa financia a implementação na rede pública. O ponto de atenção neste caso é a falta de incentivos para a parceria continuar no longo prazo: o governo não pagou portanto não tem incentivo claro na implementação, o negócio-financiador não sofre a dor, portanto não tem incentivo claro para manter o contrato.

Há também oportunidades para uma atuação B2C (Business to Consumer) voltada diretamente para os alunos e professores. Algumas EdTechs estabeleceram bastante este canal principalmente no mercado de cursinhos pré-vestibular, onde a dor é grande, clara e com data de validade. No entanto, o ensino fundamental possui 3x mais alunos que o médio então a pergunta é: porque não criaram ainda um Kumon Digital?

B) Ensino Superior [dados do censo de 2019]

Qual o tamanho do mercado?

Há hoje 8.6 milhões de matrículas no ensino superior, sendo que 76% são no setor privado e 24% no setor público. No setor privado, com 6.5 milhões de matrículas, 65% são presenciais e 35% em EaD.

Estamos diante de um crescimento exponencial em EaD? (Dados)

Principais desafios

  1. Treinamento vocacional: no Brasil, apenas 8% dos alunos passam por algum tipo de treinamento vocacional, 4 vezes inferior a média dos países da OCDE, de 32% [OECD 2020]
  2. Matrículas no ensino superior: 21% dos jovens de 25-34 anos de idade no Brasil estão no ensino superior, bem inferior a média da OCDE de 45% [OECD 2020]
  3. STEM (Science, Technology, Engenharia e Matemática): O Brasil forma entre 100 e 150 mil profissionais nessa área por ano, enquanto a China, com uma população 5x maior, forma 6 milhões [BrazilJournal]

Conclusões para quem quer empreender

O ensino superior está pronto para disrupção. O sonho do diploma está enraizado na cultura brasileira e o crescimento exponencial das ofertas de EaD vai contribuir para essa concretização. O desafio claro para as grandes instituições é que com a diminuição do presencial, com mensalidades maiores, elas vão ter que se reinventar do ponto de vista econômico para ter mais escala no EaD, que vai ter que ganhar em qualidade.

As novas tecnologias e metodologias (mobile learning, inteligência artificial, micro-learning...) vão permitir que novas startups possam ganhar espaço frente aos incumbentes. Hoje, a idade média dos alunos de EaD é maior que os do presencial, porém ao meu ver essa diferença vai diminuir consideravelmente e um novo público será impactado pelas faculdades online: os jovens.

Na minha visão o futuro do ensino superior não será online, mas sim híbrido. A combinação de conteúdo acessível pelo celular, atendimento por tutores 24h por dia e hubs locais será a base para os vencedores no espaço. Isso porque os alunos ainda vão querer 3 coisas: networking, prática e disciplina. O hubs locais permitem os três. Por meio deles alunos vão poder conhecer outros alunos de uma forma mais humana, poderão participar de laboratórios práticos de  seus cursos e ainda garantir a disciplina para formação ao irem para provas / trabalhos e etc.

Há uma grande oportunidade aqui para conectar diretamente os profissionais com o mercado de trabalho. Indo além, com o estabelecimento de trabalho remoto principalmente no mercado digital, as faculdades podem ir além e conectar seus alunos com oportunidades em empresas internacionais, propiciando que eles já saiam ganhando em Dólar / Euro.

Lifelong learning

Qual o tamanho do mercado?

Antes de mais nada é preciso definir o que é Lifelong learning: aqui eu considero essa modalidade como qualquer curso, capacitação ou treinamento que vem após o ensino superior como forma de aprimoramento profissional. Pode-se dizer ainda que para a população que não teve ensino superior, o lifelong learning também acontece - e é essencial como vou falar mais pra frente.

A abrangência do termo faz com que a estimativa do tamanho do mercado seja difícil. Para ter uma visão macro, podemos considerar a população com mais de 30 anos de idade no país, de 133 milhões de pessoas no país. Considerando que apenas 21% da população possui ensino superior, estamos falando de 28 milhões de pessoas com ensino superior que vão precisar de habilidades de upskilling e 105 milhões que vão precisar de habilidades de reskilling no futuro próximo.

IBGE

Principais desafios

  1. Taxa de desemprego: 14.3% no Brasil
  2. Média salarial do país: R$ 2.261 por mês

Conclusões para quem quer empreender

Esse é um mercado gigante que atualmente é subestimado. Os cursos técnicos, cursos livres e os recentes bootcamps e cursos para o mercado digital ainda podem crescer exponencialmente. Com uma taxa de desemprego altíssima e cada vez mais investimento de Venture Capital no país, criando um ciclo em que fundadores vão reinvestir para criarem novas startups locais, a demanda por talento será muito maior que a oferta.

Na parte do mercado high-end, com profissionais com maior capacitação, teremos uma briga boa entre empresas locais e globais por talento, já que o trabalho remoto veio para ficar. As empresas americanas e europeias vão querer acessar talento mundialmente pagando uma fração do que pagam em seus países - e ainda muito superior aos salários brasileiros. Aqui há uma oportunidade enorme para ajudar os talentos locais a estarem aptos a competirem por posições globais e ganharam em dólar / euro. Tanto ofertas por assinatura, parcelamento de um valor fixo, cobrando uma mensalidade como os famosos ISA (Income Share Agreement) são ótimos modelos para serem implementados.

No mercado low-end, o desafio vai ser recapacitar uma grande mão-de-obra no país para atuarem em um futuro dominado por novas tecnologias que vão substituir boa parte dos empregos. Os cursos livres que preparem essas pessoas para posições como vendas, software, marketing, cuidador e etc são uma forte aposta. O desafio é o modelo de negócio já que o públic0-alvo não tem o costume de gastar tanto com educação. De novo, alguns modelos baseados em ISA podem ganhar, porém o risco é o retorno do investimento já que as posições em que essas pessoas serão realocadas podem não oferecer uma receita tão grande assim.

Conteúdo para você acompanhar

A) Mapeamento de EdTechs

  • Distrito 2020 com 559 EdTechs brasileiras mapeadas
  • Holon IQ com 100 startups mais inovadoras da América Latina
  • Liga Ventures com 297 EdTechs no Brasil

B) Blogs gringos e nacionais

  • 🇧🇷 Gera Capital: newsletter semanal com um ótimo apanhado de links principais da semana tanto nacionais quanto internacionais
  • 🇧🇷 Porvir: Blog com inovações em metodologias e estudos de caso.
  • 🇧🇷 Nova Escola: Portal de noticias e conteúdo para professores
  • 🇺🇸 John Danner: Blog de um dos investidores que mais conhece sobre EdTechs no mundo
  • 🇺🇸 Office of EdTech US: Blog do Escritório de Tecnologia Educacional do governo dos Estados Unidos: muito conteúdo relevante principalmente sobre a parte de pedagogia.
  • 🇺🇸 Lightspeed Ventures:  Série de 2 artigos longos sobre tendências em educação.
  • 🇺🇸 GETChina Insights: Blog com artigos do Ecossistema de EdTechs da China.
  • 🇺🇸 Reach Capital: Blog de um fundo de Venture Capital focado em educação.
  • 🇺🇸 Emerge Capital: Blog de um fundo de Venture Capital focado no futuro do aprendizado.

Pessoas para você seguir

Abaixo uma lista não exclusiva de pessoas que estão fortalecendo o ecossistema de EdTechs nos Brasil:

Tópicos

Amaral Medeiros

Empreendedor @ ChatClass, acelerada por Google / Facebook e com 400 mil alunos em 🇧🇷 🇩🇪. Co-autor de livro de Stanford sobre ensino de coding, Ex-Líder Transfor. Digital @ Instituto Ayrton Senna

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